Agro brasileiro entra em 2026 sob pressão estratégica e novo cenário tarifário com os EUA

Safra recorde, margens apertadas e reconfiguração das tarifas americanas exigem gestão de risco, planejamento e adaptação rápida dos exportadores

O agronegócio brasileiro inicia 2026 em meio a um cenário de alta produtividade, mas também de desafios estruturais e comerciais que exigem maturidade e estratégia. Se, por um lado, a projeção de safra recorde anima o setor, por outro, custos elevados, exigências regulatórias e a instabilidade no comércio internacional impõem um novo nível de profissionalismo aos produtores e exportadores.

Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a produção de grãos deve alcançar cerca de 354,4 milhões de toneladas em 2026. A soja pode ultrapassar 177 milhões de toneladas, consolidando o Brasil na liderança global, enquanto o milho deve chegar a 138 milhões de toneladas. No entanto, especialistas alertam que volume elevado não significa automaticamente maior rentabilidade.

Com custos pressionados por fertilizantes, fretes e crédito mais seletivo, o erro na estratégia de comercialização pode comprometer margens já estreitas. Em um ambiente de volatilidade cambial e política — especialmente por se tratar de ano eleitoral — ferramentas como hedge, planejamento de caixa e gestão climática deixam de ser diferenciais e passam a ser requisitos básicos.

O clima também segue como variável decisiva. A transição após a La Niña mantém o risco de eventos extremos, encurtando janelas de plantio e colheita. Nesse contexto, o Zoneamento Agrícola de Risco Climático ganha ainda mais relevância, inclusive como critério para acesso ao crédito rural.

Nova configuração tarifária dos EUA traz alívio parcial

No campo internacional, o agro acompanha atentamente as decisões comerciais dos Estados Unidos. A recente derrubada, pela Suprema Corte dos Estados Unidos, das sobretaxas que chegavam a 50% sobre parte dos produtos brasileiros trouxe alívio a setores que vinham sofrendo perdas significativas desde 2025.

Após a decisão judicial, o presidente Donald Trump anunciou uma tarifa global de 10% — posteriormente mencionada como 15%, mas com vigência confirmada em 10% — aplicada a diversos parceiros comerciais. Apesar da nova cobrança, o fato de a taxação ser igual para todos os países devolve competitividade ao Brasil em segmentos que estavam em desvantagem.

Produtos como café solúvel, mel, pescados e uvas, que ainda enfrentavam sobretaxas elevadas, passam agora a disputar o mercado americano em condições mais equilibradas. Setores como carne bovina, café em grão e suco de laranja já estavam isentos anteriormente e tendem a sentir impacto limitado.

Para especialistas do Centro de Estudos do Agronegócio da Fundação Getulio Vargas (FGV Agro), o momento é de alívio cauteloso. A retomada de contratos deve ocorrer de forma gradual, sem expectativa de explosão imediata nas exportações. Em 2025, por exemplo, o volume de pescado exportado aos EUA caiu em relação ao ano anterior, reflexo direto das tarifas mais altas.

Seleção, não ameaça

O novo cenário reforça uma leitura já presente entre analistas: o agro brasileiro não está sendo ameaçado, está sendo selecionado. Mercados internacionais estão cada vez mais exigentes quanto à rastreabilidade, origem sustentável e conformidade ambiental, especialmente diante de regulações europeias antidesmatamento.

Exportar deixou de ser apenas produzir em grande escala. Passa, agora, por comprovar práticas responsáveis, manter regularidade de oferta e atuar com inteligência comercial.

Em 2026, o agro brasileiro entra grande — em volume, competitividade e relevância global. Permanecer grande, porém, exigirá mais do que produtividade: será necessário método, proteção financeira e visão estratégica diante de um ambiente que não tolera improvisos.


Redação: Hedianne Alves / Liberdade FM (G1)

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